Por
Giovanna Pinhero
24/02/2026
No cenário atual, a adoção de métodos ágeis tem transformado a forma como as organizações entregam valor. Contudo, ainda é comum surgirem dúvidas quanto à delimitação de responsabilidades entre alguns papéis, especialmente em ambientes organizacionais mais complexos.
Dentro das empresas, principalmente as voltadas à tecnologia, quatro papéis costumam gerar esse tipo de questionamento: Product Owner, Project Manager, Scrum Master e Agile Coach. Em alguns contextos, eles podem ser vistos como redundantes. No entanto, na prática, esses papéis são altamente complementares e, quando bem definidos, potencializam os resultados da organização.
O papel do Product Owner
O Product Owner (Dono do Produto) é o guardião do valor entregue pelo produto. Sua principal responsabilidade é realizar a gestão ágil do produto, garantindo que ele esteja alinhado aos objetivos estratégicos do negócio. Entre suas atribuições, destacam-se:
Gerenciar o ciclo de vida do produto, considerando objetivos de médio e longo prazo.
Realizar pesquisas de mercado, analisando concorrência, tendências e necessidades de clientes e personas.
Criar e acompanhar o roadmap do produto, representando e traduzindo os interesses dos usuários finais dentro do time de desenvolvimento.
Gerenciar o Product Backlog e Sprint Backlog com clareza, criando, refinando, ordenando e priorizando itens que gerem maior impacto, garantindo que toda Sprint tenha um incremento de valor no produto
Esse papel vai muito além de escrever histórias de usuário ou acompanhar solicitações de clientes. As perguntas que normalmente guiam o Product Owner são “o que será feito?” e “por quê?”, sempre com foco no produto e no valor gerado.
O papel do Project Manager
O Project Manager (Gerente de Projetos) coordena o projeto, dando o ritmo e visibilidade, com o foco na sua conclusão, por meio do atingimento da entrega de valor. É responsável pelo ciclo de vida de um projeto, podendo atuar em abordagens tradicionais, ágeis ou híbridas. Suas principais atividades incluem:
Planejar o projeto, identificando objetivos, entregáveis, prazos, metas e planos de ação.
Gerenciar e equilibrar os fatores interdependentes que estruturam o projeto, escopo, tempo, custos e a qualidade.
Executar e monitorar o andamento do projeto, garantindo transparência, gerenciando riscos, mudanças e comunicação efetiva com as partes interessadas.
Promover a melhoria contínua por meio do registro de lições aprendidas e da gestão de dependências internas e externas.
Encerrar projetos com base em indicadores de sucesso e no atingimento do escopo definido.
Esse papel agrega valor ao alinhamento organizacional, trazendo previsibilidade e clareza sobre as entregas. A pergunta que permeia a atuação do Project Manager é “quando?” e “qual o impacto?”.
O projeto possui início e fim, com um valor único. Com isto, o esforço do Project Manager é alocado por tempo determinado ao tema. Diferente do gerenciamento cíclico de produto, que não há um prazo fim.
O papel do Scrum Master
O Scrum Master (Mestre de Scrum) é um papel profundamente inserido no dia a dia do time. Seu foco não está diretamente no produto ou no projeto, mas sim em como as pessoas trabalham juntas. Ele é o guardião dos princípios ágeis e suas responsabilidades incluem:
Garantir que o Scrum e os valores ágeis sejam compreendidos e aplicados corretamente.
Atuar como liderança servidora, influenciando a remoção de impedimentos e incentivando o autogerenciamento do time.
Apoiar o Product Owner com técnicas e ferramentas para decisões estratégicas, como práticas de Discovery.
Facilitar eventos, acordos e discussões de melhoria contínua, conduzindo o time a chegar às próprias conclusões.
Promover visibilidade por meio de métricas ágeis, assegurando um fluxo de trabalho saudável e alta performance.
Embora muitas vezes seja confundido com um simples facilitador de reuniões, o Scrum Master exerce um papel estratégico no nível do time, sendo fundamental para o sucesso contínuo e a geração de valor.
O papel do Agile Coach
Enquanto o Scrum Master, um papel presente apenas no framework Scrum, atua em um nível operacional e tático, focado nos times, o Agile Coach exerce um papel estratégico em nível organizacional. Sua atuação apoia a adoção de práticas ágeis de forma ampla, atuando em times diversos e orientando quanto aos princípios, métodos e metodologias que agreguem ao contexto, seja ele Scrum, Kanban, Lean, entre outros. Entre suas responsabilidades estão:
Desenvolver a maturidade ágil de lideranças e múltiplos times, atuando como mentor.
Facilitar mudanças culturais e comportamentais, orientando a organização para a adaptação contínua.
Atuar como um agente de melhoria contínua, criando ambientes colaborativos e sustentáveis para a tomada de decisão.
Conduzir workshops e eventos relacionados ao ágil escalado.
A interação entre os papéis na prática
Um dos principais riscos relacionados a esses papéis é a sobreposição de responsabilidades nos pontos em que eles se conectam. Por exemplo, quando o Product Owner passa a ser cobrado pela gestão de cronogramas, ou o Project Manager assume decisões estratégicas sobre o produto. Quando o Scrum Master tenta gerenciar o projeto ou atuar de forma ampla sobre diversos times sem estar imerso no dia a dia, ou então, quando o Agile Coach se aprofunda excessivamente na operação, deixando de atuar de forma organizacional, como mentor e agente de transformação cultural.
De forma sucinta, o Product Owner é responsável pelas definições que envolvem o produto. O Project Manager atua em parceria, identificando as necessidades do projeto e liderando a gestão do escopo. O Scrum Master trabalha no nível do time, fomentando a aplicação do ágil e a melhoria contínua, enquanto o Agile Coach atua no aprimoramento das lideranças e no fortalecimento da cultura organizacional.
Na prática, times e organizações não são prejudicados por possuírem muitos papéis, mas sim por confundirem suas responsabilidades. Quando cada membro tem clareza sobre seu foco de atuação, o trabalho passa a funcionar como uma engrenagem bem ajustada, na qual cada papel se concentra em resolver o problema certo.
É justamente essa clareza que separa o discurso do ágil performático da prática consistente. A diferença entre “falar de ágil” e construir uma organização capaz de sustentar resultados no longo prazo.
Sobre a autora
Giovanna Pinheiro Menezes, Agilista e Project Lead da Finch, pós-graduada em Gestão de Projetos e Metodologias Ágeis.


