Por
Raphael Iglezia
Ao longo da minha trajetória profissional, tive a oportunidade de trabalhar com diferentes perfis de liderança. Conheci líderes que delegavam muito, mas acompanhavam pouco. Outros eram praticamente inacessíveis, mantendo uma relação restrita ao ambiente profissional e com pouca abertura para conversas que fortalecessem o vínculo com a equipe. Também trabalhei com pessoas extremamente humanas, outras altamente técnicas, algumas muito estratégicas e outras que conseguiam equilibrar essas características de forma admirável. Com o tempo, fui percebendo que grande parte dessas diferenças está relacionada à personalidade de cada líder e, principalmente, à cultura da organização.
Apesar dessa diversidade, existe um perfil que sempre me chamou atenção. Curiosamente, não eram, necessariamente, as pessoas mais brilhantes da equipe ou aquelas que dominavam todo o conhecimento técnico. O que mais me marcava era outra característica: pareciam trabalhar para algo maior do que a própria posição.
Durante muito tempo achei curioso ver líderes investindo tempo para desenvolver pessoas que, em algum momento, poderiam assumir suas responsabilidades. À primeira vista isso parece contraditório. Afinal, por que alguém prepararia quem poderia ocupar seu lugar? Existe quase uma sensação de que esse tipo de liderança caminha para se tornar descartável.
O que diferencia uma liderança que multiplica conhecimento
Na prática, porém, foi justamente o contrário que observei.
Os líderes que mais vi crescer profissionalmente foram aqueles que faziam questão de compartilhar conhecimento, incentivar autonomia e criar oportunidades para que outras pessoas assumissem desafios cada vez maiores. Eles não concentravam informação para preservar sua importância. Compartilhavam experiência porque entendiam que o crescimento da equipe fortalecia toda a organização. E, curiosamente, isso nunca diminuía sua relevância. Pelo contrário. Eles deixavam de ser reconhecidos apenas pelo que faziam e passavam a ser lembrados pelo ambiente que ajudavam a construir.
Inteligência Artificial no jurídico e o novo papel da liderança
Essa reflexão ganhou ainda mais força para mim diante do momento que estamos vivendo. A Inteligência Artificial, inclusive no jurídico, democratizou o acesso à informação em uma velocidade impressionante. Hoje, encontrar respostas técnicas está muito mais fácil do que há poucos anos. Nesse contexto, faz cada vez menos sentido imaginar um modelo de liderança no jurídico baseado em reter conhecimento.
Imagine um advogado sênior que seja referência para todos ao seu redor. Sempre que surge uma dúvida, uma negociação delicada ou uma decisão complexa, é ele quem recebe as perguntas. Ainda que seja extremamente competente, existe um limite para a quantidade de pessoas que consegue orientar. Esse modelo sempre criou gargalos; agora eles apenas ficaram mais evidentes.
Ao mesmo tempo, a tecnologia também deixou clara uma distinção importante: informação e experiência continuam sendo coisas muito diferentes. Ter acesso a uma resposta não significa compreender contexto, riscos, estratégia ou as nuances do relacionamento humano. É justamente aí que continua existindo o maior valor do especialista.
Como transformar experiência em conhecimento que escala
Talvez seja exatamente nesse ponto que o papel da liderança no jurídico esteja mudando.
Mais do que responder todas as perguntas, espera-se que o líder seja capaz de transformar sua experiência em algo que continue gerando valor mesmo quando ele não estiver presente. Isso significa desenvolver pessoas, estruturar processos, registrar aprendizados, criar critérios claros e, quando fizer sentido, transformar esse conhecimento em produtos, ferramentas ou soluções que ampliem seu alcance. O conhecimento deixa de estar concentrado em uma pessoa e passa a fortalecer toda a organização.
Percebo que essa mudança também altera a forma como enxergamos relevância profissional. Não se trata de ser indispensável por acumular respostas, mas de se tornar referência porque foi capaz de aumentar a capacidade das pessoas ao seu redor. É uma relevância construída pelo impacto, e não pela dependência.
O futuro da advocacia está em multiplicar conhecimento
Achei oportuno compartilhar essa reflexão neste Dia do Advogado porque acredito que ela conversa diretamente com o momento que vivemos. A advocacia continuará exigindo conhecimento técnico, senso crítico e responsabilidade. Mas talvez, no futuro da advocacia, o diferencial esteja menos na capacidade de concentrar conhecimento e mais na disposição de multiplicá-lo. Seja formando pessoas, estruturando processos ou desenvolvendo soluções que permitam que esse conhecimento alcance muito mais gente do que seria possível individualmente.
No fim das contas, talvez um dos maiores legados que um profissional possa deixar não seja a quantidade de problemas que resolveu sozinho, mas a quantidade de pessoas que ajudou a resolver problemas ainda maiores depois dele.
Sobre o autor
Raphael Iglezia, Product Owner da Finch, atua no desenvolvimento de soluções para o mercado jurídico, com foco em gestão de produtos digitais, metodologias ágeis e inovação.


